Ele entrou no carro todo preocupado dizendo "ela sumiu" e falando coisas que nem eu nem nossos outros amigos estávamos entendendo.
- "Calma cara, do que você está falando?", eu disse.
E ele começou a contar uma longa história que começava no início do dia, com tantos detalhes que eu me perguntava se aquilo era verdade.
- "(...) Eu entrei para tomar banho e ela estava na sala vendo TV, mas quando eu saí ela já não estava mais lá. Eu pensei que até a hora que eu terminasse de me arrumar ela apareceria, mas eu já saí de casa e até agora nada. Já liguei para o celular dela e está dando fora de área ou desligado. Será que aconteceu alguma coisa? Tô preocupado."
- "Relaxa, ela só deve ter ido dar uma volta e esqueceu de avisar."
- "É, pode ser."
Pensei que esse assunto morreria ali, mas durante quase toda a noite eu o via com o celular no ouvido e de vez em quando ele comentava: "ainda desligado". Eu nunca o tinha visto assim e estava achando aquilo muito estranho. Como todo mundo sabe, quando há alguma coisa que te preocupa o pouco que você bebe já é o suficiente para te deixar extremamente louco, e foi assim que ele ficou. Levei meu amigo para casa, e quando cheguei no prédio dele resolvi subir junto para evitar que ele acabasse dormindo no elevador. Pensei que pela situação dele ele tivesse esquecido da preocupação de horas antes, muito pelo contrário, a primeira coisa que ele quis fazer foi ver se ela estava no quarto dela.
- "Não cara, depois você vê isso. Você vai acabar acordando ela. Toma um banho, vai pro seu quarto, dorme e quando acordar você pergunta a ela onde ela estava." , eu tentei convencê-lo.
- "Então deixa só eu botar o ouvido na porta para ver se o ventilador está ligado."
É, ele me enganou. Assim que chegou perto da porta ele a abriu e entrou.
- "Olha, ela tá dormindo."
- "É, ela tá dormindo. Agora vamos sair daqui antes que você a acorde."
- "Deixa só eu dar um abraço de boa noite..."
Eu tentei impedir, mas já era tarde demais. Ela acordou assustada, mas depois percebeu quem era e começou a rir.
- "Que issoooo?", ela perguntou dando risada.
- "É um abraço de boa noite", disse meu amigo bêbado.
- "Um abraço de bom dia, né?", brincou ela ao reparar no sol que entrava pela janela.
- "Desculpa, eu tentei fazer ele mudar de ideia mas não adiantou.", tentei me redimir.
- "Tudo beeem, que horas são Rafa?"
- "Hmmmm, 8 horas."
E foi ai que percebemos que nosso amigo já tinha se acomodado na cama dela e já tinha até pego no sono.
- "Vou levar ele pro quarto dele para que você possa voltar a dormir."
- "Não, pode deixar ele ai. Não vou mais conseguir dormir mesmo.", disse ela enquanto tirava o tênis e as meias dele.
- "Bem, então você assume daqui para frente? Vou para casa..."
- "Pode deixar comigo, mas tem certeza de que está bem para dirigir? Qualquer coisa você pode dormir lá no quarto dele."
- "Tô bem, tô bem. E além do mais eu pretendo dormir até às 5 da tarde hoje hahahaha."
Ela me levou até a porta, nos despedimos, ela me agradeceu por ter tomado conta dele e disse que eu era um bom amigo. E dali até a minha casa eu só conseguia pensar nas duas últimas pessoas que tinha falado naquele dia. Na relação de amizade, quase irmandade, que eles tinham(mesmo depois de tudo) e de como ela cuidava dele com todo o amor do mundo. Agora eu conseguia entender o porque de tanta preocupação dele, os sentimentos eram recíprocos. Quando você tem por perto uma pessoa que te trata tão bem, você só quer fazer o mesmo por ela, quer que aquela pessoa sinta na mesma intensidade, ou até mais, o quanto ela te faz bem. Você quer tomar conta dela em todos os momentos para não deixar que nada de ruim aconteça. E todas aquelas coisas que ele me contava e eu achava bobeira e dizia que ele era um viadinho, passaram a se tornar coisas bonitinhas e que eu queria viver. Eles não estavam juntos, e talvez nem ficassem. Mas eu agora era a primeira pessoa a chegar na arquibancada para torcer para que " as cinzas que ficaram de fogos anteriores, devidamente se inflamem outra vez".
Por: Rafael L.
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