Desligaram meu ventilador enquanto eu dormia. A partir daí, eu passo a escutar todos os barulhos, inclusive o do telefone tocando (gosto tanto que na minha casa não terá telefone). Foi assim que entendi mais ou menos a conversa da minha mãe primeiramente com o meu primo e depois com minha tia ao telefone:
- Nasceram?? AHH QUE LINDOO!! ... *cochilei* ... nossa, então foi uma mistura do cherry com o guru com a ...*cochilei* ... mas então essa mancha ele puxou do ... *cochilei* ... deixa eu falar com a sua mãe, meu filho. Denise, foi tranquilo o parto? ... *cochilei* ... eu acho que vou querer um. *acordei*
COMO ASSIM ELA VAI QUERER UM??? ELA JÁ TEM 6 CACHORROS! SEIIIIIIIIS!!!
Desculpa pessoas, eu acho cachorros muito bonitos e fofinhos e legais, parte de mim já estava até escolhendo um nome pra ele, mas não dá mais. Ignorando a parte da sujeira que eles fazem e o fato de eles não calarem a boca, ainda tem as brigas constantes entre os machos, que se intensificam durante o cio das cadelas. Um dia desses minha mãe encontrou um dente ensaguentado no quintal, que era resultado de uma das brigas noturnas deles. E era um daqueles dentes grandões lá de trás. Sem contar que não sei por que cargas d'água minha mãe ainda não castrou as fêmeas, e fica isolando elas dos machos durante o cio, o que as faz ficarem chorando a noite e dia inteiros. Ato que não adianta nada pois um dos machos escala o portão que os separa. Meu objetivo não era ficar falando sobre os cachorros aqui de casa, mas como eu não perco uma oportunidade de reclamar deles... Voltemos a história!
O telefone tocou de novo.
- Blá blá blá, whatsapp? Ela tá dormindo, já vejo, beijo ............................ Paola, você tá acordada? *finjo que não pra ela desistir e ir embora* Paoooooola, você tá acordada?
- Que que você quer, mãe?
- O William mandou a foto dos cachorrinhos que nasceram pro seu whatsapp, deixa eu ver.
(todo mundo tem whatsapp nessa caralha, por que tem que mandar logo pro meu???)
- Pega meu celular, mãe.
- *ela aperta o botão* AAAAAAIIII MEU DEUS QUE COISA LINDA, EU QUERO AUMENTAR A FOTO COMO EU FAÇO??? (só pra lembrar que eu, teoricamente, estava dormindo). AQUI TEM ESCRITO "FECHAR" E "VER", AONDE EU APERTO?
- Você quer fazer o quê?
- Ver.
- Então eu preciso responder?
- Mas apareceu a foto de um homem aqui (Eddie Vedder), eu não quero ver esse homem.
- Então desbloqueia a tela que você vê seu cachorro.
...
....
...............
- Como desbloqueia a tela?
- Passa o dedo nela da esquerda pra direita.
- AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH EU QUEROOOOOOOOOOO, ELES SÃO LINDOOOOOOOOOOOSSSSS (e teoricamente, eu ainda estava dormindo), olha esse branco parece o Flu, mas daí esse preto só pode ter puxado da Lua, mas como assim não tem nenhum marrom? (.............)
- MÃE!!!!!!!!!!!!!!!!! Eu não quero saber de cachorro!!!!!!!!!1
É a partir desse ensejo que entro em um outro assunto muito decorrente na minha vida atualmente: sair da casa dos meus pais. Acho que nunca pensei tanto nisso como tenho pensado ultimamente. Quero as coisas do meu jeito, aqui não pode ser. Quero manter arrumado, aqui é impossível. Odeio telefone, aqui tem. Não quero ter bichos, aqui tem até demais. Quero dormir, aqui não posso. Não quero dar satisfações, aqui tenho que dar o tempo todo. Quando estou sem nada pra fazer, abro meu guarda-roupa e fico decidindo as roupas que eu vou levar quando eu for embora e as que vou doar. Vendo as coisas que vão comigo, e as que vou deixar por aqui mesmo. Como vou organizar as coisas que vou levar dentro das malas, e que mala vai levar tal coisa. Como vou organizar todas as malas dentro do carro. E já pensando fora daqui: como será meu guarda-roupa, como vou organizar minhas coisas, eu ainda vou ter um Charmander em cima da cama. O primeiro eletrodoméstico que vou comprar será uma máquina de lavar roupa, e minha casa terá plantas em todos os lugares que eu puder botar plantas. Alguém, que eu não sei quem, vai me dar um livro de receitas e eu vou aprender a cozinhar. Eu vou fazer compras no mercado. Eu vou pagar contas (essa parte aqui não reserva nem um pouco de ansiedade). Eu vou ter o tapete fofinho que eu sempre quis ter e minha mãe nunca deixou por que eu sou alérgica. E não só 1, vou ter 2 tapetes fofinhos. Doooois mãe, isso mesmo. E quando você chegar na minha casa eu já sei até o discurso que você vai fazer. Deu pra perceber que eu me empolgo falando disso? Err, pisciana né? Aí vem a parte que está desanimando grande parte da população carioca: o preço dos imóveis. E a angustiante sensação de que nunca vou sair da casa dos meus pais. Eu só quero minha independência. Só isso, mais nada.

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