- Nossa, eu amo você - falei.
- Ah - respondeu ela.
- Um ah bom? - perguntei.
- O melhor ah do mundo.
Eu tô lendo outro romance adolescente. Podem me julgar o quanto quiserem, mas eu amo esse tipo de história. Gosto dessa pegada ingênua que elas costumam ter, é quase como eu a minha vida inteira. A garota estranha, que sempre teve mais amigos do que amigas, que achava as brincadeiras de garotos mais divertidas, que ficava mais empolgada com o video-game do que com qualquer outra coisa. E não tive muitas mudanças ao longo dos anos, digamos que só fiquei um pouco mais feminina e nada mais.
Acho que toda essa convivência com o sexo masculino me tornou uma pessoa com o mínimo de paciência para programas de mulherzinha, aumentou significantemente minha idiotice e teve bastante relevância na minha maturidade. Eu perdi o BV com 14 anos pois antes disso eu estava suficientemente ocupada brincando pra parar pra pensar em beijar alguém. Veja bem, minhas "amigas" da época já estavam dando e eu estava mais preocupada em zerar o Sonic. Eu ainda queria Barbies de Natal. Eu tinha fitas VHS de praticamente todos os filmes de animação da época e assistia incansavelmente. Meu maior sonho na vida era receber a carta de Hogwarts (nem vou falar muito sobre isso pois periga ser meu sonho até hoje). Sim, eu tinha 14 anos. Catorze.
Na escola, se tinha esporro, se tinha zona, se tinha futebol, se tinha coordenação, se tinha implicância, se tinha musiquinhas de mal gosto, se tinha zoação, se tinha escrotice, se tinha discussão por causa de time, tinha eu. Isso misturado aos gritinhos histéricos com as amigas durante todo o período Twilight em que nós ficávamos nos cantos da sala de aula, aos prantos, lendo Crepúsculo. E cada frase de impacto do estúpido dono do Volvo brilhante Edward Cullen nós chorávamos, e escrevíamos no caderno e no livro e no quadro e repetíamos pra todo mundo até que ninguém aguentasse mais nos ouvir recitando coisas tipo "and so the lion fell in love with the lamb" acompanhados de mais gritinhos histéricos e comentários tipo ESSE HOMEM NÃO EXISTEEEEEEEE (óbvio, ele era um vampiro que brilha. se tá difícil vampiro, quiçá brilhante né) & EU QUERO UM DESSESSSSS (mas, não acabou de falar que esse homem não existe?). Basicamente, nem os menininhos da 6º série nos aguentavam. Mas tá aí um tipo de coisa de mulherzinha que muito me convém, essa capacidade de gostar e me emocionar sem limites com livros de romances. Fora isso, não suporto shopping, não suporto comprar roupas, nem sapatos, não suporto salões de beleza, não demoro mais do que 30 minutos pra me arrumar, etc, o que me faz não ter uma boa convivência com gente fútil.
Daí a pessoa começa a faculdade, num curso que só tem mulher. Na comemoração pós apresentação do TCC, nos papos sobre objetivos pós formatura, eu ouvi coisas do tipo:
"Vou entrar no primeiro emprego que aparecer pra já começar a juntar dinheiro pro meu casamento."
"Quero começar a trabalhar logo pois eu e meu namorado vamos comprar uma casa."
"Vou me casar logo após a formatura e me mudar pra tal lugar com meu marido."
E eu só pensava em uma coisa: sair correndo daquele lugar e procurar um psicólogo pra saber qual era o meu problema. Queria saber por quê eu não tinha desejos iguais aos delas. Queria saber por quê minha maior vontade era ter dinheiro o suficiente pra passar as férias viajando pela Europa. Era ter dinheiro pra ir em todos os shows que eu quisesse ir, mesmo quando eles não fossem no Rio. Era ter dinheiro pra poder comprar tudo de pokémon que eu quisesse. Era ter dinheiro pra pegar um avião de manhã e ir pra São Paulo brincar com os patos no Ibira e voltar pra casa no final da tarde. Por que, mesmo já terminando a faculdade, eu ainda era tão imatura?
Isso começou a me incomodar bastante. Passei a não me achar suficiente, inteiramente despreparada, nada mulher. Até eu conversar com o Lucas. Ele me fez perceber o quão idiota eu estava sendo. Que eu não precisava me igualar à elas em nada para ser tão mulher. Me fez lembrar que eu sou uma pessoa diferente e só por isso eu tenho um conceito diferente de felicidade. Me fez perceber também que aqueles desejos que elas tinham estavam aqui em algum lugar, só que minha lista de prioridades era outra. Que ninguém é melhor do que eu por ter desejos mais tradicionais e aparentemente mais adultos. Como ele mesmo disse: "eu não sou menos homem por não querer andar pela Paulista de terno e com malinha na mão."
E hoje em dia eu posso dizer que eu me sinto bem do jeito que sou. 70% de mentalidade masculina; 50% do tempo sendo idiota; 80% do tempo rindo de idiotices; 65,7% do tempo falando palavrão; 78% do tempo discutindo futebol; 90% sendo feliz no meu modo de ser feliz (os outros 10% são da TPM). Não tem problema nenhum o celular despertar com a música do pokémon pra te lembrar de tomar o anticoncepcional. Não tem problema nenhum ser um pouco menino. Não tem problema nenhum manter seu lado criança. Não tem problema nenhum ser você.
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