Eu sou muito insegura e sempre fui. Algumas pessoas me criticam por isso e acham que eu sou assim só pra ouvir as pessoas dizerem coisas boas sobre mim, mas eu realmente sou insegura e não falo coisas só pra ouvir elogios, eu as falo porque realmente acho. E um dia desses eu vasculhei a minha mente atrás de motivos pra eu ser assim, e nem eu imaginava que podia carregar tanta "mágoa" dentro de mim. Senta que lá vem história.
Tudo começou quando eu mudei de escola pela 1º vez e tive que fazer novos amigos (eu sempre fui péssima nisso). Logo depois que mudei de escola eu peguei piolho, e isso tornou o desenvolvimento de amizades muito difícil. Crianças são seres terríveis e podem ser muito más quando querem. Simplesmente ninguém queria ser meu amigo porque eu tinha piolho. E simplesmente nenhum piolho queria sair da minha cabeça, eu devia ter um sangue muito bom. Eu ainda me lembro das árduas horas nos finais de semana em que minha avó, minha mãe ou minha tia ficavam catando piolho em mim e na minha irmã. De quantas e quantas vezes minha mãe deixava minha cabeça de molho no vinagre ou passava Kwell. Eu odiava o cheiro de Kwell, e muito mais o de vinagre. E os bichos não saiam de jeito nenhum. Então eu passei muitos anos na escola sendo excluída de tudo e vendo as outras crianças se afastando de mim porque eu tinha piolho. E isso não se limitava aos coleguinhas da escola, as filhas das amigas da minha mãe também não queriam brincar comigo porque elas também sabiam que eu tinha piolho (ou recebiam ordens das mães pra isso). Até que um dia uma dermatologista (minha saga em dermatologistas começou bem cedo) receitou um remédio via oral pra nós e, depois de apenas 1 comprimido, nunca mais tive piolho na vida. 1 comprimido que poderia ter me privado de tanto constrangimento. E daí eu finalmente achei que pararia de ser o alvo das zoações. Sabe de nada, inocente.
Eu já era uma criança muito tímida, depois disso tudo me tornei reclusa. Destruíram minha autoestima e desde então eu sempre me sentia o cocô do cavalo do bandido. E o que aconteceu depois??? Comecei a ter a famosa ACNE. As espinhas começaram a pipocar no meu rosto e eu tinha apenas 11 anos. Sabe quantas pessoas na minha turma da escola também tinham acne? Isso mesmo, zero! Parece que eu estava destinada a ser o ser estranho e ferrado da turma pra sempre. Que bonitinho, estão todos entrando na adolescência. Os meninos estão começando a ter seus primeiros fiapos de barba e as vozes estão começando a engrossar. As meninas estão começando a desenvolver seios, e algumas já tiveram a menarca. O ser alienígena da Paola está cheio de bolas vermelhas e inflamadas na cara. Nada de bunda, nada de peito, tudo de espinhas. Eu me achava tão feia que tudo o que eu queria era que as pessoas não notassem a minha presença nos ambientes. A minha mãe me criou pra ser vaidosa, mas eu não via mais sentido em querer me arrumar, já que nada que eu fizesse iria tirar aquelas coisas estranhas e chamativas de mim. E novamente fui eu pro dermatologista. Agora aqui vai uma coisa que eu falo e ninguém acredita, sabe-se lá o por quê: a 1º dermatologista que eu fui pra tratar minha acne foi a Karla Assed. Sabe aquela da Xuxa, Angélica, etc? Então, ela. Deu jeito? Não. Então eu continuei sendo aquela coisa estranha. Nunca que o menino por quem eu era apaixonada iria olhar pra mim. Nunca que eu iria ter um namorado. Nunca. E eu já estava conformada com isso. Um dia brincaram comigo sobre algo relacionado a isso, e eu, por não saber como reagir, reagi da pior maneira.
Eu tinha um amigo que sempre que eu chegava na escola ele vinha e dizia: BOOOOM DIIIIAAA, e eu respondia da mesma forma. E a partir disso, todas as vezes que nos olhávamos dizíamos "bom dia" um pro outro. Uma vez, no dia dos namorados, resolveram fazer um correio do amor na escola, e depois do recreio uns alunos foram passando pelas salas pra ler as mensagens. E quando falaram "para Paola" todo o sangue do meu corpo subiu pra minha cabeça e eu não sabia o que fazer, principalmente porque eu nunca esperava receber aquilo. E a mensagem era: "Bom dia, quer namorar?". E eu sabia que tinha sido ele. E a minha reação foi ficar com raiva e parar de falar com ele. Péssimo. Ainda mais porque foi tudo uma brincadeira armada por ele e uma amiga minha, mas eu não mudei de opinião nem depois que soube. Ainda bem que depois voltamos a nos falar e ele ainda me zoou por muitos anos por causa disso. Eu fui bem idiota.
Nessa mesma época, eu lembro de ter pego um lápis de olho branco da minha mãe, e eu o passava todos os dias em cima dos olhos como se fosse um delineador. Buscando me sentir melhor, ou transferir a atenção das pessoas pra uma das poucas coisas que eu tinha de bonito. Só sei que se tornou um vício e eu ia com lápis de olho branco pra todos os lugares que eu fosse. Mas Paola, por que você não usava maquiagem pra esconder se te incomodava tanto? Porque eu sempre achei que ficava pior com maquiagem. Muito provavelmente porque eu não sabia usar, mas eu ficava me sentindo um chokito. E eu lembro de ter aberto esse meu pensamento pra uma de minhas "amigas" da época e depois disso meu apelido na turma virou "chokito". Tudo bem, eu já não me importava mais com zoação sobre a minha pele, e pelo menos chokito é gostoso. Nessa altura eu já estava na 8º série e mais nenhuma menina da minha turma tinham espinhas. Eu me sentia péssima por causa da minha pele horrível e sempre me perguntava quando aquilo iria acabar como acabaram os piolhos. Spoiler: um comprimido me "salvou" temporariamente.
Quando eu tinha 14 anos faltando uns 3 meses pra completar 15 eu sofri uma mudança comportamental repentina. Nem eu nem ninguém sabemos o por quê. Se foi reação pós falecimento de 3 parentes seguidos, se foi necessidade de atenção, se foi rebeldia de adolescente indomável, enfim, eu mudei bastante. Eu passei da patricinha adoradora do rosa com quarto de princesa pra roqueira dark gótica do mal. Eu tinha um quarto rosa, com uma cortina rosa com rendas brancas e caimento de cortina de castelo, minha cama era branca com detalhes dourados parecendo cama de princesa de desenho e eu tinha um abajur que era o castelo da cinderela. Você abria meu guarda-roupa e só tinha roupa rosa. E, de repente, eu decidi que só vestiria preto, troquei de quarto e passei a vestir as roupas pretas da minha mãe (que ficam largas em mim até hoje, e vale ressaltar que eu ainda não tinha peito, bunda, etc). E eu troquei o lápis branco em cima dos olhos pelo lápis preto na linha d'água. Nessa minha fase "dark" minha vaidade e autoestima atingiram níveis negativos. Eu só usava o lápis preto pra me sentir mais dark e nada mais. Eu nem penteava o cabelo pra sair de casa. Mas ok, isso eu não faço até hoje. Até que eu tive minha festa de 15 anos.
Na minha festa a maquiadora usou umas coisas no meu rosto que eu gostei. Depois de muitos anos eu consegui ver a minha pele sem coisas vermelhas e sem parecer um chokito pra isso. E eu queria aquelas coisas pra mim, mas a minha mãe não deixou. Disse que eu era muito nova para aquilo e que poderia fazer mal pra mim. Duvido muito que simples produtos de maquiagem fossem me fazer tão mal quanto a minha pele horrível já tinha feito pro meu psicológico. Mas como eu poderia querer que a minha mãe, que sempre teve a pele lisa e perfeita, entendesse que eu precisava daquilo pra me sentir bem? Mas ok, posso viver sem isso, eu já tinha até conseguido um namorado sem usar maquiagem. Ele devia ser meio doido, ou estava desesperado, mas ok. Até que em algum momento em 2007 a Monique decidiu me maquiar durante uma aula de educação física, já que nós nunca fazíamos nada mesmo. E foi aí que ela me convenceu a comprar minhas primeiras coisas. Ela foi comigo na farmácia e eu comprei as coisas com o dinheiro do lanche (eu não lembro o que compramos agora) (e mesmo que você nunca vá ler isso, obrigada Moni!). Eu fiz muitos e muitos e muitos tratamentos pra pele. Mas não é uma coisa barata, e meus pais nunca entenderam que era importante pra mim, até hoje não entendem. Os tratamentos nunca iam pra frente. Então o jeito era tentar esconder, minha mãe querendo ou não! A partir daí minha autoestima melhorou, eu me sentia melhor. Mas não tinha autoconfiança nenhuma. Qualquer pessoa sempre era melhor do que eu. Por vezes eu interpretava a maquiagem como eu contando uma mentira. Ela escondia as espinhas, mas elas ainda estavam ali, e ainda me incomodavam. Eu não conseguia me sentirbem perto das pessoas se eu estivesse sem maquiagem. Eu precisava fazer alguma coisa.
Mas Paola, lá em cima você não disse que um comprimido te "salvou"? Então, sim. Eu comecei a tomar anticoncepcional. Tomei anticoncepcional por muitos anos, e não me aparecia nenhuma bolotinha no rosto. Mas meu problema de acne não se resume a espinhas, eu tinha cravos também. Eles podem não ser tão visíveis pros outros, mas se eu tô vendo já é ruim o suficiente. Além de que naquela altura eu já tinha consideráveis cicatrizes, que incomodam mais que os cravos. É claro que a autoestima deu uma guinada considerável depois do anticoncepcional, mas a autoconfiança permaneceu a mesma bosta. Além de que todo o problema que eu tinha com as espinhas eu transferi para as cicatrizes. Eu realmente não acreditava quando alguém dizia que eu era bonita, eu não conseguia entender como alguém poderia achar que eu tinha a capacidade de destruir o relacionamento de alguém (tanto por aparência quanto por caráter), eu ficava mais besta ainda quando a namorada do Lucas, que mora em São Paulo, achava que eu tava tentando roubar ele dela. enquanto que eu além de estranha sou uma idiota e ficava conversando com ele sobre ir pra show do Slipknot no Acre à cavalo. Eu nunca tive esse, vamos chamar de "poder físico", que as pessoas achavam que eu tinha. Eu poderia falar um pouco sobre quantas vezes eu fui trocada na vida, mas só vou deixar em aberto pra vocês saberem que além de todo o meu problema com segurança, aconteceu esse tipo de coisa pra ferrar mais ainda a minha autoconfiança, e não foi só uma vez.
Agora eu posso entender que toda a minha insegurança tem fundamento. Minha baixa autoestima me levou a ser uma máquina de achar defeitos em mim, tanto que reclamo de muitas outras coisas além da minha pele. Há mais ou menos 1 mês eu decidi parar de tomar anticoncepcional por uma questão de saúde, considerando o longo tempo que já tomava e minha forte influência genética. Hoje em dia eu me cuido muito mais e me sinto muito melhor com relação a minha aparência. Hábitos muito básicos e simples que adicionei na minha rotina já me fizeram toda a diferença. Felizmente hoje não dependo de hormônios em cápsulas pra me sentir bem, e quero tentar me manter feliz com o que eu posso ter. Apesar disso, provavelmente nunca vou conseguir acreditar nos elogios. Eu não vou conseguir passar uma borracha no meu passado ou esquecer o quanto eu já tive minha autoconfiança rebaixada.
E essa é pra você. Sim, você mesmo. Não importa se ela é sua amiga, sua melhor amiga, sua grande amiga, sua irmã, eu não quero saber. Ela pode ser feia, bonita, gorda, magra, com cabelo bonito ou cabelo feio, ter a cara esburacada ou não, eu vou me sentir insegura em relação a ela. E eu não sou obrigada a aceitar nada, por ninguém.
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