7 de novembro de 2021

O quanto já me afetei pela opinião alheia e tentei ser quem não sou

Quando eu era criança sofri bullying na escola por ter piolho. Já escrevi sobre isso e de jeito nenhum vou procurar o post para linkar aqui, mas para clarear o entendimento: tive piolho por muitos anos, nada funcionava contra eles e eu era muito excluída pelas outras crianças, tanto no âmbito escolar, quanto com as crias das amigas da minha mãe. Eu odiei e odeio meu ensino fundamental e a escola que estudei. Houveram dias que eu chorava por não querer ir praquele lugar, com aquelas pessoas. 

Quando os piolhos finalmente cessaram e minha turma do colégio reduziu drasticamente, eu me vi em um grupo com meninas que eram populares & queridas & bonitas & OPA eu fazia parte de algo!!! E eu não podia perder aquilo!! Eu saía com aquelas pessoas, ficava com elas no recreio, tirávamos e postávamos fotos no flogão, eu estava sendo enxergada por pessoas que não me enxergaram por ANOS. Eu fazia o que eles queriam fazer, eu gostava do que eles gostavam, eu falava como eles falavam, porque eu queria FAZER PARTE e eu nunca tinha FEITO PARTE então eu não sabia como eu tinha que fazer para FAZER PARTE.

Um dia estávamos no intervalo entre uma aula e outra, esperando o professor chegar, e uma dessas meninas surgiu com uma revista nova da Todateen e falou:

- OLHA GENTE, A TODATEEN DESSE MÊS FOI INSPIRADA NA PAOLA!

Eu, sempre boba, perguntei rindo:

- Ué, por que?

Ela virou a revista pra mim e a matéria falava sobre Maria vai com as outras. E quando eu questionei o que aquilo significava (eu realmente não sabia), ela só respondeu, com sorriso e tom de escárnio:

- Vou te emprestar a revista e aí você descobre.

Eu não li a revista na aula porque naquela época eu era o tipo de aluna que tirava 8,0 em teste surpresa de matemática, e não é porque eu era boa em matemática. E ainda bem que eu esperei chegar em casa.

Eu fiquei muito triste e chorei muito. Achava que estava fazendo tudo certo, participando, que eles gostavam de mim e, afinal, eu continuava sendo o zero à esquerda de sempre. Eu era só uma pessoa que "copiava" eles, a sem personalidade, etc.

Lembro de ficar muito confusa e a minha cabeça era só o meme da Nazaré, mas aquela foi só mais uma questão sobre mim que precise resolver. Sozinha.

Não, eu não gostava de festas em que havia um apagão e qualquer pessoa podia me beijar.

Não, eu não gostava de dançar em festas da escola.

Não, eu não gostava de babado novo. Nem da claudia leite. Nem de abadares. Nem de quem usava eles como roupa normal.

Não, eu não gostava que me chamassem de chokito. Embora eu ame chokito. 

Não, eu não gosto de baladas em que as pessoas vão passar a mão em mim e não há nada que eu possa fazer. 

Não. Muitos nãos.

Daí pra frente eu mudei, julgo que renasci.


Oi, meu nome é Paola. Eu gosto de Legião Urbana e Cazuza. Nada contra rosa, mas prefiro preto. Esses bonés que brilham são ridículos, assim com essa coreografia de baby boy, ainda bem que a beyoncé nunca vai ver isso. Eu odeio com todas as forças do meu ser essa corda do caranguejo. Eu gosto de ler, escrever e passar meus finais de semana assistindo animações. Amo muito Harry Potter e meu sonho é conhecer a Itália por causa de Um Sonho de Popstar.

Várias das características da Paola que eu vinha descobrindo que eu era atraíram pessoas. Uma dessas pessoas me chamava de "minha princesa gótica" e disse que levaria rosas pretas para me visitar no hospital quando fui mordida por um cachorro, sendo que eu sequer fiquei internada. Essa pessoa um dia foi me buscar depois da aula e fomos ao Mc Donald's. O uniforme do meu novo colégio era uma farda, e eu precisava usar o cabelo preso e uma boina. Quando chegamos ao Mc, a tal pessoa me perguntou: 

- Você precisa ficar com isso (boina) até aqui?

E eu respondi que teoricamente precisava, mas que eu sempre tirava.

- Então tira, prefiro você de cabelo solto.

Eu besta: 


Nisso ele "me ajudou" a ajeitar o meu cabelo. Ele colocou meu cabelo todo na minha cara. Meu cabelo quase cobria meus olhos. Aquilo, obviamente, começou a me incomodar e eu fui pegar uma xuxinha para prender. Ele percebeu meu movimento e disse:
- Não! Deixa assim! Eu prefiro assim porque tampa as suas espinhas.

Nunca mais.

Bom, mais ou menos.


Eu namorei uma pessoa. Essa pessoa se tornou amigo das minhas amigas. Anos depois do término houve um revival e a reaproximação com as minhas amigas foi natural. Um dia, conversando com minha melhor amiga, ele disse que não gostava de meninas brancas. 

Sei lá sabe, talvez ele não tenha notado que eu tenho cor de parede, coitado, homem... hehe

E minha amiga que nunca erra perguntou:

- Ué, mas e a Paola??

Não lembro qual foi a resposta dele, só lembro que eu, graças a esta declaração, atingi níveis de trouxa nunca superados.

Acabou o romance mas eu ainda queria o romance, e daí concluí que a única forma de reatar o romance era ME TORNANDO O QUE ELE QUERIA.

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAH

PUTA QUE PAREO COMO EU ERA IMBECIL

Então você gosta de peitos? Eu tenho peitos. Você gosta de roupas decotadas? Eu usarei. Você gosta de bunda? Só lamento. Você gosta de bronze e marquinha? Então tá bom. E lá fui eu pro meu plano. 

Botei um biquíni, catei o bronzeador da minha mãe, tomei banho daquilo e passei o dia torrando no sol. Um pequeno detalhe que esqueci é que EU NÃO FICO BRONZEADA. Eu passei o dia todo no sol e fiquei ROSA. Eu fico rosa e facilmente me dá QUEIMADURA. E eu tive queimaduras na região do colo e na testa. O que eu pensei? AH MAS EU TÔ COM MARQUINHA DO BIQUÍNI.

Me arrumei toda e coloquei a blusa mais decotada que eu tinha. Uma blusa que ganhei e nunca consegui usar justamente por ser muito decotada e me deixava desconfortável. Mas ele não gostava de decote? Então vamos de decote!

Eu tinha os peitos, o decote, a marquinha e o bronzeado rosa, agora eu só precisava ir para o lugar que ele ia todo sábado e fingir que foi um encontro casual. Eu já estava pronta pra sair e minha mãe apareceu. 


Não me deixou sair. A Paola de hoje pensa "ainda bem", a Paola adolescente brigou até cansar e afinal passou o sábado passando loção calmante na pele.

Não muito tempo depois ele apareceu namorando uma menina que era eu só que de olhos verdes.


Não me reduzo, não me adapto, não finjo gostar de nada pra caber no mundo de ninguém. Não importa como você é, quem você é. Se a pessoa quiser ficar com você, ela vai te aceitar como tu és. Eu aprendi isso da pior forma, mas ainda bem que eu aprendi.

E agora sim posso dizer: nunca mais!



Depois de muitos anos sem postar aqui reapareço com um texto que também é muito velho, mas que não quis jogar fora sem compartilhar. 

É gratificante olhar pra trás e ver quantas mudanças positivas ocorreram por aqui.

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