8 de março de 2019

Um jacaré no SUP

Das coisas que acontecem quando eu tento me envolver com a natureza: o episódio do stand up paddle.

Eu amo a natureza. Amo as plantas todas, a maioria dos animais, as cores, os cheiros. Por outro lado, a minoria dos animais que eu não amo eu odeio e tenho repulsa com todas as minhas forças. Eu não mato porque sou da política do "tu lá e eu cá", e nem tenho coragem suficiente de chegar perto deles, muito menos se for pra matar. Essa minoria abrange de insetos até animais maiores. Esses dias eu estava limpando a cozinha do Elias e quando joguei água na bancada saiu de um buraco uma lacraia do tamanho de uma anaconda. A desgraçada ainda era tão gorda que teve que ficar rebolando para conseguir sair do buraco, tipo como quando nós tentamos entrar em uma calça que já não nos cabe tão bem assim. Eu fui atrás dela com um inseticida? Não. Eu taquei o chinelo nela? Não. Eu simplesmente larguei a cozinha como estava, saí e fechei a porta. Ficou pra ela todas as coisas que estavam lá, a cozinha, e se pá a casa (que nem é minha mas eu já estava dando pra lacraia gigante). Só fechei a porta pra evitar que os gatos fossem lá caçar ela e me aparecessem trazendo aquilo de presente. Eu não sou louca de ir encarar aquele bicho, tenho muito discernimento graças a Deus!!! 

Mas... vamos voltar ao dia do SUP!!

Era carnaval, um belíssimo dia de sol, vamos passear. Muito bonitas as fotos das pessoas em cima daquelas pranchonas, bastante cariocas, esbanjando qualidade de vida, etc, eu queria também. A gente ignora todas as possibilidades de dar merda nessas horas. O local que fomos fica na restinga da marambaia, e como o próprio nome já diz, é uma RESTINGA, e restingas tem animais dos que classifico como os que não gosto.

FOMOS.

Chegando lá eu e Elias fomos humildes reconhecendo que não se adequa a nossa realidade essa coisa de "muito cariocas, esbanjando qualidade de vida etc" porque a gente não faz sequer uma caminhada nessa vida, então reconhecemos que talvez a tal da prancha de stand up paddle não fosse uma boa ideia e fomos de caiaque, o mesmo pros 2. Além de que ir de prancha seria superestimar demais minha noção de equilíbrio & direção.

Observações: 
1) avisaram da existência dos bichos detalhando exatamente como eles ficam? Sim.
2) avisaram que o caiaque pra 2 pessoas tinha potencial pra dar uma merda colossal e estabelecer uma crise no casal? Também.
3) sou a personificação da tenacidade e quis ir da mesma forma? Óbvio.   
4) eu fiquei empolgada com a experiência e nem pensei na possibilidade de enjoar no caiaque já que eu não posso ver um troço que navega que já tô passando mal? Exato.

Começamos o passeio em um espaço aberto e sem muita vegetação onde o maior dos problemas era eu e Elias conseguirmos entrar em sincronia para remar aquela porra. Eu esqueci de perguntar mas queria saber onde que ele aprendeu a remar coisas porque eu tive uma educação muito urbana e nunca havia precisado remar nada até meus 27 anos, 11 meses e 16 dias. Para mim era simplesmente colocar o remo na água, fazer um esforcinho e com a força da mente aquele troço iria fazer o que eu queria. Mas claro que não funciona assim e eu estava lá só o meme da nazaré.


Até aí tuuuuudo bem!
Mas nós começamos a entrar em um espaço em que a vegetação era mais densa, mais fechada. Mermão, aquilo começou a me dar uma angustia. Tudo que eu havia entendido sobre remar caiaques evaporou da minha mente e eu fiquei só o desespero de chegar perto de uma daquelas plantas. Na minha cabeça eu só imaginava aquele caiaque batendo em um tronco de árvore e derrubando alguma cobra que estava tomando sol num galho bem dentro daquele caiaque ou até em cima de mim, e o MAJESTOSO ESCÂNDALO que eu faria naquele momento, e daí eu pulando pra fora do caiaque naquela água fedida e a cobra pulando também e vindo nadar perto de mim e me puxando para o fundo da marambaia onde eu jazeria até o fim da minha última célula. Ou talvez um daqueles crustáceos caindo dentro do caiaque e vindo beliscar minha bunda. ENFIM, possibilidades pra minha mente doentia criar foi o que não faltou. E por isso eu não conseguia me concentrar em pilotar aquele caralho porque eu estava ocupada demais pensando em todas as coisas que poderiam acontecer, ao mesmo tempo que eu tentava desesperadamente fazer alguma coisa quando via que o negócio estava indo justamente pra onde eu não queria que fosse por culpa todinha minha. 

Em suma, o percurso foi todo assim. Eu gritando, brigando com o Elias, dizendo que queria ir embora, bem estressada e remando errado. Enquanto que minhas cunhadas bem plenas e belas em cima da prancha, eu lá igual uma maluca berrando. Até que chegou o ápice de tudo. Quem nunca entrou no G1 e leu uma notícia sobre algum jacaré perdido em algum lugar do Rio de Janeiro? É jacaré atravessando a rua, jacaré invadindo condomínios, jacaré preso na tubulação, etc. Eu acompanho todas porque a minha diversão é ficar enviando essas notícias para meu amigo paulista que tem pavor de jacarés. Mas nem todas as notícias que li foram o suficiente para me lembrar da possibilidade de encontrar um jacaré ali.

Quando estávamos fazendo o percurso da volta, contra a correnteza, em um determinado momento alguém gritou O QUE É AQUILO ALI????? Quando eu olhei era um troço verde boiando na água que eu nem parei pra analisar o que era, já fui logo remando (errado) pra ir pra bem longe daquilo. Botando toda minha força pra ir rápido e contra a correnteza (mas continuava fazendo errado). Daí alguém disse que era uma pedra. Relaxei. No mesmo minuto o Elias gritou NÃO É UMA PEDRA!!! E eu só ouvia ele colocando toda a força dele contra a água pra sair dali. E eu já calma (dentro do possível) respondi "calma cara, era uma pedra". E ele:

NÃO É UMA PEDRA!!!!!! VOCÊ ACHA QUE EU ESTARIA FAZENDO TODA ESSA FORÇA SE FOSSE UMA PEDRA????

Desesperei de novo. Naquele momento minha cabeça não funcionava mais. Meu corpo executava ações involuntárias (e inúteis, diga-se de passagem) enquanto na minha mente só passava um letreiro de aviso SAI DAÍ AGORA CARALHO DE GAROTA MALUCA!!!!!!!
A próxima coisa que lembro, nós já estávamos de volta a parte da vegetação fechada e densa, indo mais devagar por causa das plantas. Ainda estava em alerta porque o risco de bater numa árvore e cair uma cobra etc ainda era iminente, mas a adrenalina do jacaré tinha passado. Eis que falo para o Elias: "putz mano, era um jacaré", e ele responde:

"heheheheehehehehehehe, não, era uma pedra mesmo"


MERMÃO


MER
MÃO
!!!!!!!!!

Eu fiquei tão puta............ mas tão puta.............

Nesse momento eu era só: braveza  cansaço  calor  enjoo  dor nos braços  dor nas pernas impaciência  quero ir embora  acaba logo 

Fica aí de lembrete pra eu escolher melhor as coisas na natureza que eu for fazer na vida. De preferência algo em terra porque se precisar eu sei correr. Pelo amor de Deus, que desespero. Só fico imaginando se fosse realmente um jacaré, o que ele pensaria ao ver uma doida fazendo um escândalo por causa da presença dele enquanto que ele estava ali só dando uma refrescada e pegando um sol. Já se fosse um crocodilo, eu não estaria aqui escrevendo esse texto agora. E afinal, nem a foto blogueira em cima da prancha esbanjando qualidade de vida eu tirei. Passeio de índio, literalmente.


(mas eu voltaria se fosse pra ir na prancha e em espaços mais abertos  :x  ) 

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